quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natalino

 Pôs o gorro, a roupa e a bota. Puxou o saco de presentes para perto. Tirou um embrulho e me deu: 
"Toma, meu filho, essa é a vida. Vá viver!
Qualquer dia a gente se vê!"

 E foi pela chaminé, distribuir alegria em outros lugares.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

(Des) Favores

Meu caro amigo,
Seja um pouco mais humilde
Pois como hoje eu precisei,
Pode ser que ainda precise

De alguma ajuda
Ou uma simples caridade
E o mundo pode devolver
Toda essa sua má vontade

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Tela verde

Atrás da tela,
Todo mundo é atraente
E o povo é inteligente
E gosta de se expressar

Atrás da tela,
Todo mundo é mais honesto
E o povo até faz manifesto
E tem coragem de lutar

Atrás da tela,
Todo mundo é mais humano
E o povo vai se abraçando
E diz que vai se ajudar

Atrás da tela...
Talvez esta é a mazela:
O que fica detrás dela
Só existe assim por lá

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Egoísta

 Divido uma dança, um momento, um sorriso. Divido um pedaço, um trocado e até uma ideia. Mas, um texto, não divido!  O texto sou eu em palavras. E eu, eu não divido com ninguém.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O ovo e a frigideira

 Entro na cozinha e vejo um ovo sobre a mesa. Mal vejo o ovo e procuro outro ovo, e outro. Quebro um a um e vou virando de tempos em tempos sobre o fogo. Faço um omelete e não hesito: ponho fim ao ovo e a todas as divagações.
 Fim.

 Quem pensa demais não come.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Zé sumido

José não tinha parentes próximos, nem amigos
De bens, quase nada: apartamento alugado e nenhum carro
No trabalho, não era dono, nem chefe
Na roda de samba, só batia palmas.

Um dia desceu para comprar um cigarro
Se escafedeu e nunca mais voltou
Até hoje ninguém perecebeu
E sumido, o Zé vive feliz.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Estátua

O homem não faz porque não tem tempo
Quando tem tempo, fala que está sem dinheiro
Quando tem dinheiro e tempo, lhe falta vontade
Quando tem tudo, falta incentivo
E pra ganhar incentivo, fica sem fazer nada
Assim vive o bicho humano, parado no seu lugar

E não acha graça da vida.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

C'est la vie

Quanto dura a vida?
A vida dura pouco
Dura. Dura muito!
A vida dura nada!
Dura? Que nada!
A vida não é dura!
Dura pra quem vive,
É dura pra quem sobrevive!
A vida é dura ou dura?
A vida passa. 
Não seja mole: 
Pegue o trem e viva.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Negativo

Eu digo não
Quando não é de minha vontade
Eu digo não
Quando o assunto é crueldade
Eu digo não
Pra alguns assim, só de sacanagem
Eu digo não
Às vezes só pra matar a saudade
Eu digo não, sim
E quase sempre sou feliz
Eu digo não
Pior mesmo é quem não diz

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Poesia do desafogo

Nesse mar de notícias
Até o pescoço d'água
Que houvesse mais dois palmos
E então eu me afogava

Só pra não ler mais essas barbáries. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Central

Tinha uma ideia no meio do caminho
No meio do caminho, tinha uma ideia
Nem em uma ponta, nem na outra
É isso mesmo: no meio do caminho.

Talvez ainda não esteja claro para todos
Mas um dia, você irá compreender
Que lugar de ideia é mais pro meio
E não nas pontas, tentando convencer.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ralo

Nasceu concentrado
Sua mãe molhou seus planos
O casamento levou seus anos
A vida aguou seus sonhos.
Diluiu-se

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Àcássia

 16790 dias. Outra primavera. E a flor ainda está aqui, com a beleza de uma rosa e a firmeza de um pinheiro. Pela delicadeza e sensibilidade, ninguém diria que está aqui há tanto tempo, que tomou sol, chuva, brisa, tempestade e nem ao menos a graça perdeu. Mas é dura na queda. O seu segredo está nas raízes. Está fixada com a mais forte vontade de ser feliz e foi regada com o mais puro amor daqueles que a plantaram aqui. É uma joia viva, verdadeira obra de arte; a mais bela flor do campo.
 E eu, declarado apreciador, tudo que posso fazer é desejar que o sol brilhe muito tempo ainda para ela. Porque enquanto for da sua vontade espalhar perfume pelos ares, aqui estarei, ao seu lado, completando também primaveiras a lhe contemplar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sonâmbulo

 Acordou meio cambaleando, falando umas besteiras, como se estivesse despertando da maior ressaca de sua vida. Moral. Levantou tão desnorteado, que se assustou com a própria imagem e atacou todos os reflexos da casa, num ato digno de pena. "Está tudo errado", repetia pelos cantos, indo e voltando, mas ainda sem saber o porquê. A agonia ia aumentando e o ar cada vez mais rarefeito na sua mente, o impedia de recobrar os sentidos. Quando parecia alcançar alguma luz, voltava para o coma, breu total.
 Vendo de camarote o desespero, se aproximou um senhor distinto, de terno, verdadeiro gentleman, o segurou com força e falou em seu ouvido: calma, é tudo um sonho, você ainda dorme. Fique tranquilo, te acordo quando for preciso.
 Acreditou. Virou pro lado e se afogou em mais trinta anos de escuridão.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Provérbio político

O que é meu é meu
O que é teu é meu
O que é nosso é meu
O jatinho e o apê em Paris são meus
Mas não têm nada a ver com dinheiro público
As meias e a maleta não são minhas
A responsabilidade é nossa
O problema é teu

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Corredor polonês

 - Esta é a corrida, senhor. Nela, vencedores e perdedores não se definem pela ordem de chegada, mas pela capacidade de encontrar a linha que os separa da conquista. Assim, quem cruzar a linha vence, estando inteiro ou não.
- Inteiro ou não?
- É... Às vezes, dependendo do caminho que o competidor escolhe, algumas partes que o compõem se perdem no percurso. Mas vale lembrar que isso não significa que a escolha foi errada ou certa; de vez em quando, ambos os caminhos exigem um sacrifício da pessoa. E, se ela der sorte, em alguns momentos pode recuperar essas partes ou ganhar outras.
- Então basta chegar ao final para ser vitorioso?
- Final? Nunca disse que o final e a linha de chegada eram a mesma coisa. Ao final todos chegam. Se o senhor prestar atenção, perceberá que a corrida nunca foi sobre quem vai mais longe e sim sobre quem está disposto a arriscar mais partes para ter sucesso.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Dominó

Onde não há felicidade, não pode haver amor.
E vice e versa.

Quando se esgota o amor, o respeito diminui.
Não tem conversa.

Se o respeito acaba, acaba quase tudo.
Aí o chumbo versa.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Declarado

Sem o amor
A saudade seria hipotética
Minha vida seria patética
E a história, menos poética
Sem os versos que insisto em fazer
Só para te ver sorrir.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Narciso 2.0

 Vejo aqui uma ruga e uma cicatriz, ali outra marca, mas de nascença, vejo alguns fios brancos. O olho esquerdo é mais baixo que o direito! Como eu nunca fui perceber? Analiso a altura, me aproximo, me afasto. "Espelho, espelho meu, há quanto tempo esteve aqui?", parece até que é novidade. Vou olhando mais fundo, mais fundo, com a cara colada no vidro. De repente, sou puxado para dentro, como em uma ficção científica de efeitos duvidosos. Estou eu, o breu e, ao fundo, o meu reflexo, todo iluminado. "Ou será que o reflexo sou eu?". Me perco.

 Todo espelho é um buraco, não vá fundo demais.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Blasé

Eu quero mais.
Porque a cafeína já me é pouca,
O sonho já me é pouco,
A mente já me é pouca,
O corpo já me é pouco.
Eu quero mais.
Traz outro,
Desce dois.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Achado

 A verdade que estava aqui, cadê? Parecia tão concreta, consolidada. Há um minuto, poderia dizer que a tinha nas mãos, que nunca deixara de ser minha. Assim como a razão, a paixão, o poder das palavras e tudo o mais. Tinha tudo, agora tenho nada. Tinha você também, não? Ou pelo menos achava que sim. Achei muitas coisas. Sempre acho, mas volto a perdê-las. A vida é assim, cada um conta a sua própria história, a sua vantagem. A vida é assim:

 Cada um se engana com os seus próprios olhos.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Coca-Cola

Acho que entenderam um pouco errado
Quando o tal poeta planejou a expressão
Por "revoltados", trocaram "retardados"
E assim avacalhou-se com a minha geração

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Peroba

  Sonhei que inventavam um óleo da vergonha. Era incolor e inodoro, muito parecido com a água, porém mais viscoso e com a diferença de fazer efeito. De repente, como moda, as pessoas em massa começavam a comprá-lo e passá-lo no rosto. Virava febre. Só pouco tempo antes de acordar que eu pude perceber: o mundo tinha se tornado um lugar melhor.

sábado, 27 de abril de 2013

Fim do mundo

No dia em que a Terra parou,
A polícia não prendeu ninguém
Os bispos não disseram amém
Os carros não encheram a estrada

No dia em que a Terra parou,
Não se ouviu gritaria
E bem ali, à luz do dia
Tudo se acabou em nada

No dia em que a Terra parou,
Não houve conspiração
Não invadiram o Afeganistão
Nem pediram ajuda à NASA

No dia em que a Terra parou,
Não teve ator global
Nem na mídia, nem o escambau
Defendendo a causa errada

No dia em que a Terra parou,
Nem feminista apareceu
Nem machista, católico, judeu
Para protesto, nem parada

No dia em que a Terra parou,
Parou calada
Pensou: Chega, desisto
E pôs um fim à palhaçada

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Iluminada

 As luzes se movimentam na minha direção e vão clareando o cinza asfalto que corre sob meus pés. Mais acima, vaga-lumes amarelos e brancos povoam o horizonte, em uma sinfonia de clarões; leves pontos sobre o negro predominante do céu arquitetônico. A lua, a essa altura do campeonato, atua como figurante.

É necessário admitir: como são lindas as luzes da capital!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mania de poesia

 Escrevo da minha mente. E ainda, um pouco da dos outros. Carlos, Cecília, Luís, Camões, todos juntos, batidos no liquidificador do meu lápis. Salvo a qualidade, que obviamente não é a mesma. Mas não abro mão das minhas palavras. Se não tem teclado, vai à caneta. Sem papel, vai na mão, na mesa, no ar, mas vai. Vai porque aprendi que não se segura ideia. As frases têm de fluir, naturalmente, tal qual a respiração. Tal qual o pensamento.

 Penso, logo escrevo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sine qua non

Condição de levantar, é ter caído
Condição para abraçar, é ter amigo
Condição de uma saudade, é ter perdido
Condição para chorar, é ter doído
Condição de uma volta, é ter partido

Não se preocupe: inventaram condições para tudo o que tem sentido
E para o que não tem, aqui vai mais um pedido:

Ame incondicionalmente. Condição essencial para se viver.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ditado

Quem tem boca vaia Roma.
Vaia? Que nada...
Quem tem boca pra falar, cala
Quem tem boca pra calar, mais fala

Quem tem boca vai à Roma
Vai? Vai nada...
Quem tem boca pra perguntar, não escuta
Quem tem boca pra alimentar, vai à luta

E a única verdade é a da frase tosca:
"Quem fala demais, dá bom dia à mosca".

sexta-feira, 12 de abril de 2013

.com

 Acesse, curta, compartilhe, comente: tudo no imperativo para você não se esquecer. Na tela, implícito: "digitalize-se". Cadastre-se e se torne um perfil em apenas três passos, assim ninguém mais precisa vê-lo de frente; esse processo é muito rápido e prático. Mas e o caminho de volta? O inverso até hoje ninguém descobriu. Na vida real não existe "Ctrl z".

 Cuidado: não caia na rede.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Procura-se

 Viva, de preferência (apesar de achar que já está morta). Paga-se bem. Costuma ser bem simples, e há muitos não vejo. Acho que antigamente estava sempre por aí, no dia a dia das pessoas, mantendo firme o respeito e a ordem. Estava ao agradecer quando alguém segurava a porta; ao sorrir, mesmo sem vontade, ao prestar um serviço; ao levantar a mão para falar e, principalmente, ao falar baixo.
 Procura-se, mesmo sem esperança, mesmo que despedaçada, a educação.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Moralista às avessas

 Não representa? Como não? Representa, e muito! Toda vez que você aponta o dedo, toda vez que você julga o coleguinha, desvia para não passar do lado de alguém. Representa quando você regressa dois mil anos e faz um comentário absurdo, quando você tenta impor um ideia. Nesta sua postagem intolerante, na sua piada racista, no comentário homofóbico e até quando você deseja mal a alguma pessoa.
 Pense bem, agora... Não é verdade? Não adianta apenas "achar", porque até em falar besteira, te representa. Não basta falar: "Não me representa"!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Incisivo

 "A melhor defesa é o ataque", e se sentia sempre acoado. Distribuía golpes de ferradura em cada um e suas palavras já pareciam mais verdadeiras estacas levadas pelo vento. Enquanto todos se socializavam, ia se amolando. Tornou-se um bisturi.
 Um belo dia conheceu Ana, menina doce e adorável; apaixonou-se, conquistou-a, trouxe Ana para perto. Perto demais. Coitada, partiu-se ao meio. Tentou até juntar uns pedaços, ser mais macio, mas só fazia o que sabia bem: cortar. Era afiado demais.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1/2

 Não sei se é predisposição, mas tenho mania de deixar as coisas pela metade. Aprendo meio solo, escrevo meio texto, meia música; se for pra correr, meia maratona de meio quilômetro; se for pra foto, meio sorriso. Às vezes, meia palavra e já me faço entender. Pela metade, claro. Meio que é assim, tudo partido em 50% meus e 50% do acaso. E se me vir acabar algo, como este parágrafo, não se assuste, só usei metade do potencial da minha criatividade.
 Se eu me incomodo? Ah, meio que sim. Fico dividido entre ser acomodado e querer mais alguma coisa, metade-metade. Mas, afinal de contas, quem é inteiro nesse mundo hoje?

sexta-feira, 1 de março de 2013

Humanização

 A gente anda com a cabeça baixa, de fone de ouvido e ainda não olha para os lados, só para não precisar ver e nem falar com ninguém. E ousamos nos chamar de "humanizados".
 A fome na África não parece abalar, a morte ali na esquina também, nem um pouco. Então a luz cai e o mundo vira um corredor polonês. Mas nós somos "humanizados".
 Alguns não sabem como é possível amar a um animal, que fielmente nos acompanha durante a vida e, indefinidamente, nos transmite uma alegria pura; e, por isso, acabam por matar e maltratar dezenas de bichinhos. E, mesmo assim, os "humanizados" somos nós.
 Os idosos são tratados com ignorância e ingratidão, e as nossas crianças, criadas com desdém. Advinha? A nossa sociedade é "humanizada".

Infelizmente, ser humano, se aprende. Ninguém nasce humano.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Saudade

Acordei meio que pela metade: como se estivesse faltando alguma coisa.
Levantei, tomei banho, tomei café e saí. Realmente, faltava alguma coisa.
Na rua, todos me apoiaram cem por cento, mas não sei... Faltou alguma coisa.
Faltou quando não vi o carro, faltou quando peguei o celular.
Faltou muito na mesa, ao meio-dia.
Talvez tenha faltado um pouco de força; talvez, um pouco de sorrisos.
Mas o que faltou mesmo eu sempre tive certeza:
Faltou o dia inteiro, você.
Mas eu tenho sorte, porque em mim, tem de você sobrando.
Mesmo assim, a saudade mastiga, ela não perdoa. Não mesmo.



sábado, 26 de janeiro de 2013

Aula 1

Solidariedade: substantivo feminino.
No Aurélio, "Solidariedade: 1. Laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes. 3. Sentido moral que vincula o indivíduo à vida."
Etimologia: vem do francês Solidarité, "responsabilidade mútua"; deriva de Solidaire, "inteiro, independente"; de Solide, que vem do latim, Solidus, "firme, sólido".

Bom, agora que você já aprendeu sobre a palavra, pode responder: com quantas mãos se escreve "solidariedade"?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Quebra de rotina

 Hoje pensei em inovar, surpreender. Pensei em quebrar a rotina (dizem que esse negócio é bom pra manter a cabeça de pé, os neurônios em dia, que afasta Alzheimer e até mal-olhado). Só pensei. E agora estou aqui, seguindo o mesmo caminho, só que em outras palavras; apesar de realmente ter pensado em escrever um Kinder Ovo.
 Não sei por que, mas não vai ser desta vez a quebra de rotina... Gosto da certeza, mas não gosto do mesmo. Porque, no fim das contas, o que é certo fica sem graça, mas não decepciona.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Goteira

Meu relógio é um conta-gotas
Contra-gotas, contra-tempo
Conta até a última.
Conta as gotas,
Gatos pingados na pia,
Na pia do tempo que seca
E, apesar de tudo,
O meu relógio ainda conta,
Com o mesmo irritante barulho,
As gotas da vida que resta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Chumbado

  Tenta aos poucos se mover, achando que se trata de algum tipo de areia-movediça. Sente que está totalmente preso e procura não se desesperar, mas logo vê que seu esforço não adianta de nada. Começa a tentar movimentos bruscos, mas não se desloca um milímetro. "Espera aí! Nem um milímetro?", ri consigo mesmo e se alivia. Não é areia, nem lama, é chumbo. Suspira e se mantém ali, petrificado, sorrindo:

 Impossível avançar, mas, pelo menos, afundar não é uma opção.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Homem de referência

 Nunca me animou muito esta história de ser "coringa", "jogar nas onze", enfim, tapar buraco. Eu sempre gostei mesmo do tal centro-avante. Ele pode estar meio barrigudo, ser mais velho que os outros, correr pouco, mas, quando é bom mesmo, faz a parte dele: põe para dentro, decide.
 Eu conheço um que se aposentou tem pouquíssimo tempo, meio de surpresa. Não tinha mais tanquinho, nem corria os 90, mas ainda estava no topo da carreira. É destes caras que, não importa como a bola vem, ele manda de primeira e marca. E como marca... Marca muito!  Marcou de todas as formas a vida inteira, foi artilheiro e até comprou o próprio passe. Mas se aposentou.
 Eu, iniciante nos campos, joguei com ele por algum tempo. Aprendi, e muito! Por fim, ele até me elogiava na frente do técnico, e deixava minha moral muito maior do que era. Hoje, só tenho a agradecer pelo que fez por mim e, no dia em que eu for artilheiro, ele vai estar ali, recebendo prêmios ao meu lado.
 Mesmo fora dos gramados, todas as minhas jogadas sempre serão para ele. Afinal, ele é o meu homem de referência.