segunda-feira, 29 de abril de 2013

Peroba

  Sonhei que inventavam um óleo da vergonha. Era incolor e inodoro, muito parecido com a água, porém mais viscoso e com a diferença de fazer efeito. De repente, como moda, as pessoas em massa começavam a comprá-lo e passá-lo no rosto. Virava febre. Só pouco tempo antes de acordar que eu pude perceber: o mundo tinha se tornado um lugar melhor.

sábado, 27 de abril de 2013

Fim do mundo

No dia em que a Terra parou,
A polícia não prendeu ninguém
Os bispos não disseram amém
Os carros não encheram a estrada

No dia em que a Terra parou,
Não se ouviu gritaria
E bem ali, à luz do dia
Tudo se acabou em nada

No dia em que a Terra parou,
Não houve conspiração
Não invadiram o Afeganistão
Nem pediram ajuda à NASA

No dia em que a Terra parou,
Não teve ator global
Nem na mídia, nem o escambau
Defendendo a causa errada

No dia em que a Terra parou,
Nem feminista apareceu
Nem machista, católico, judeu
Para protesto, nem parada

No dia em que a Terra parou,
Parou calada
Pensou: Chega, desisto
E pôs um fim à palhaçada

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Iluminada

 As luzes se movimentam na minha direção e vão clareando o cinza asfalto que corre sob meus pés. Mais acima, vaga-lumes amarelos e brancos povoam o horizonte, em uma sinfonia de clarões; leves pontos sobre o negro predominante do céu arquitetônico. A lua, a essa altura do campeonato, atua como figurante.

É necessário admitir: como são lindas as luzes da capital!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mania de poesia

 Escrevo da minha mente. E ainda, um pouco da dos outros. Carlos, Cecília, Luís, Camões, todos juntos, batidos no liquidificador do meu lápis. Salvo a qualidade, que obviamente não é a mesma. Mas não abro mão das minhas palavras. Se não tem teclado, vai à caneta. Sem papel, vai na mão, na mesa, no ar, mas vai. Vai porque aprendi que não se segura ideia. As frases têm de fluir, naturalmente, tal qual a respiração. Tal qual o pensamento.

 Penso, logo escrevo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sine qua non

Condição de levantar, é ter caído
Condição para abraçar, é ter amigo
Condição de uma saudade, é ter perdido
Condição para chorar, é ter doído
Condição de uma volta, é ter partido

Não se preocupe: inventaram condições para tudo o que tem sentido
E para o que não tem, aqui vai mais um pedido:

Ame incondicionalmente. Condição essencial para se viver.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ditado

Quem tem boca vaia Roma.
Vaia? Que nada...
Quem tem boca pra falar, cala
Quem tem boca pra calar, mais fala

Quem tem boca vai à Roma
Vai? Vai nada...
Quem tem boca pra perguntar, não escuta
Quem tem boca pra alimentar, vai à luta

E a única verdade é a da frase tosca:
"Quem fala demais, dá bom dia à mosca".

sexta-feira, 12 de abril de 2013

.com

 Acesse, curta, compartilhe, comente: tudo no imperativo para você não se esquecer. Na tela, implícito: "digitalize-se". Cadastre-se e se torne um perfil em apenas três passos, assim ninguém mais precisa vê-lo de frente; esse processo é muito rápido e prático. Mas e o caminho de volta? O inverso até hoje ninguém descobriu. Na vida real não existe "Ctrl z".

 Cuidado: não caia na rede.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Procura-se

 Viva, de preferência (apesar de achar que já está morta). Paga-se bem. Costuma ser bem simples, e há muitos não vejo. Acho que antigamente estava sempre por aí, no dia a dia das pessoas, mantendo firme o respeito e a ordem. Estava ao agradecer quando alguém segurava a porta; ao sorrir, mesmo sem vontade, ao prestar um serviço; ao levantar a mão para falar e, principalmente, ao falar baixo.
 Procura-se, mesmo sem esperança, mesmo que despedaçada, a educação.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Moralista às avessas

 Não representa? Como não? Representa, e muito! Toda vez que você aponta o dedo, toda vez que você julga o coleguinha, desvia para não passar do lado de alguém. Representa quando você regressa dois mil anos e faz um comentário absurdo, quando você tenta impor um ideia. Nesta sua postagem intolerante, na sua piada racista, no comentário homofóbico e até quando você deseja mal a alguma pessoa.
 Pense bem, agora... Não é verdade? Não adianta apenas "achar", porque até em falar besteira, te representa. Não basta falar: "Não me representa"!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Incisivo

 "A melhor defesa é o ataque", e se sentia sempre acoado. Distribuía golpes de ferradura em cada um e suas palavras já pareciam mais verdadeiras estacas levadas pelo vento. Enquanto todos se socializavam, ia se amolando. Tornou-se um bisturi.
 Um belo dia conheceu Ana, menina doce e adorável; apaixonou-se, conquistou-a, trouxe Ana para perto. Perto demais. Coitada, partiu-se ao meio. Tentou até juntar uns pedaços, ser mais macio, mas só fazia o que sabia bem: cortar. Era afiado demais.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

1/2

 Não sei se é predisposição, mas tenho mania de deixar as coisas pela metade. Aprendo meio solo, escrevo meio texto, meia música; se for pra correr, meia maratona de meio quilômetro; se for pra foto, meio sorriso. Às vezes, meia palavra e já me faço entender. Pela metade, claro. Meio que é assim, tudo partido em 50% meus e 50% do acaso. E se me vir acabar algo, como este parágrafo, não se assuste, só usei metade do potencial da minha criatividade.
 Se eu me incomodo? Ah, meio que sim. Fico dividido entre ser acomodado e querer mais alguma coisa, metade-metade. Mas, afinal de contas, quem é inteiro nesse mundo hoje?