terça-feira, 26 de maio de 2015

Guru

  O conselho entrou pela janela. Ainda que não tivesse o seu tom, tinha, definitivamente, a sua cara. De início, nem reparei. Divagava sobre os microproblemas cotidianos que parecem imensos à primeira vista. Enquanto isso, pouco a pouco, foi ganhando as feições a que há tanto me acostumei. Se aproximou sorrateiramente, de uma vez, e me trouxe a solução. Me sacudiu:

"Seja homem, já que sua mãe não foi."

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sutil

Cuidado ao se oferecer:
Entre o solícito e o idiota
Há uma linha tênue
Tão tênue
Que ninguém vê

terça-feira, 12 de maio de 2015

Pechincha

Foi vendo o homem deitado
Junto ao carro, na esquina
Que entendi que a vida
Vale menos que a gasolina

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Mímico

  Tentou deixar a barba crescer e falar mais grosso, mas não adiantou. Tentou comprar um carro esporte, beber bebidas mais caras e se encher de mulheres. Não funcionou. Tentou comprar um terno, fazer cara de mau e não dar bom dia, mas não chegou nem perto. Ainda estava longe de ser igual ao pai. Faltava muito. Faltava ser homem.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Rasteiro

  Felipe já nasceu com medo de altura. Quando menor, fugia da roda gigante. Suas viagens eram só de trem e navio. Avião, nem pensar. Na adolescência, não passou de 1,60. Crescendo, se conservou pequeno. Não pela estatura. No trabalho, recusou dois cargos altos e sua relação era péssima: palavras de baixo calão e fobia da high society.
  Durante uma vida inteira, Felipe se manteve próximo ao chão. Se achando esperto, evitou todas as quedas que a vida poderia ter oferecido. Pobre rapaz: mal percebeu que nunca esteve por cima.