terça-feira, 30 de outubro de 2012

Autor do absurdo

Falava sempre que podia e, de vez em quando, quando não podia também. 10% de verdades e o resto, de outras coisas... Não admitia a palavra mentira; quando questionado, dizia: "é licença poética!". Realmente, era mal compreendido. Se via como um realista, mas só ele se via assim. Pouco a pouco, todos iam se afastando do escritor. Um dia perguntou o porquê. Lhe responderam: "A sua língua o precede!"

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Zona de conforto

 Levantou. Foi andando em direção à ela. Já estava decidido: não aguentava mais, teria que pôr fim a tudo. Estava quase chegando, quando começou a passar um filme em sua mente. Estavam juntos, em vários momentos diferentes; riam juntos, viviam juntos e ele não conseguia mais se lembrar de um segundo que tivesse passado sozinho. Começou a andar devagar. Parou. Voltou. Se sentou novamente, riu consigo mesmo e forçou um sorriso em seu rosto:  a preguiça de reescrever tudo era maior que a sua vontade.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Technology

Smart car
Smartphone
Smart book
Smart cover
Smart house
Stupid people

Antenado

Retrato do mundo indo pelo ralo
Sombra do nosso governo falho
Estupro, crime, lavagem cerebral
Sangue, violência, tudo de mau
Avisos, controle e manipulação
Calma, amigo, é só a televisão

Ilha sem água

Entre quadras e tesourinhas vou perdendo meu eixo. Do pensamento engarrafado às obras e aos desvios. Desvio de ruas, caráter e um pouco de verba. Todos pensam que os malandros constroem o mané, mas o mané pavimenta os espertos. A bandidagem cresce de fora pra dentro e de dentro pra fora, não tem pra onde correr. Pouco a pouco se perde a linha, mas tudo bem: o verde ainda não amadureceu.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sonhos

Capital come um por um
Como quem derruba árvores infrutíferas
Infrutíferas? Ora, sonhos não são árvores!
São os frutos propriamente ditos!
Aí fazem cálculos, projeções, estatísticas
E se destroem os sonhos.
Mas ora! Sonhos não entendem de números!
Sonhos são apenas sonhos
Criam-se expectativas, põe-se regra
E, mais uma vez, os sonhos vão pelo ralo.
Ora, sonhos são livres!
Tem de se entender sobre tudo isso...
Mas ora! Sonhos não se entendem!

Um dia haverá de se sonhar de novo neste mundo.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Portal

 - Pronto, aqui é o fim da linha! Este é o limite de tudo o que você conhece. Daqui para lá o mundo é outro, mas não precisa temer: para atravessar, basta ter vontade. Porém, saiba que ali tudo muda, o que era tristeza vira alegria e o que era sorriso agora te faz chorar. Você pode ficar caso queira, mas se for, não poderá voltar. A mim, só cabe lhe fazer uma pergunta: a quantas anda a tua vida?

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Miragem

 Tudo parece diferente. As lembranças dão forma, o subconsciente mentaliza, mas os olhos sempre dão um jeito de negar o que se vê. Pregam peças atrás de peças e te forçam a ficar ali, perplexo, buscando outra explicação senão a obviedade, a solidez dos fatos. A aparência vai se distorcendo. Como num pesadelo em que tudo é de cera e vai derretendo aos poucos, sua realidade também o é: em um piscar de olhos você é transportado e tudo se manda dali, sem nem deixar rastro.
 Acreditar ou não acreditar? Eis o dilema de quem se apoia em coisas frágeis demais.
 Aquilo que capta imagem, não é capaz de captar essência.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Amadureça

Cresça,
Mereça,
Não amoleça,
Apareça,
Erga a cabeça,
Suba e desça,
Até enlouqueça!
Mas não se esqueça:
Reconheça!
Não desmereça jamais um feito alheio.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Aviso

O corpo sente
A alma formula
A boca eterniza
O poeta avisa:
Cuidado! As palavras transformam.

Tic-tac

 Os ponteiros continuavam, e ele corria sempre para o lado oposto. Contra o tempo e contra tudo, parecia viver um atraso infinito. "Tempo é dinheiro", ele gostava de dizer. Mas eu nunca acreditei: sempre tinha um pouco de notas no bolso, mas nunca tinha um segundo para nada. Tinha mil relógios, cada um em um fuso. Buscava estar sempre em um esquema, tinha hora até para respirar. Por alguns anos, ele viveu tentando controlar cada minuto que se passava, tentava parar o tempo. Fez planos, tabelas, horários e programações. Se esqueceu do principal: o tempo passa.

 E assim, o tempo o passou para trás. O seu relógio finalmente parou.
  

domingo, 7 de outubro de 2012

Roda viva

Não entendeu? Estude
Se perdeu, procure
Quer saber? Pergunte
Adoeceu? Se cure!
Se escapou, segure
Quer viver? Se cuide!
Não riu? Espere a próxima piada.
O mundo não gira pra te agradar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Hipercrisia.

Sou malandro, sou esperto
Não sei nem o que é uma fila
Tudo tem o seu jeitinho
Muito otário é quem vacila

Mas não vá me questionando
Sou um cara muito honesto!
Visto sempre uma camisa,
E participo de protesto

Sempre pelo acostamento
Afinal, o que que tem?
Se luto contra a impunidade
E até me articulo bem!

Pela boca dos manés,
Tá rolando um papo novo
Que diz que a corrupção
Já começa pelo povo!

Nada a ver esta conversa
Maior papo puritano
Você também mata trabalho
Ou eu cometo algum engano?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Homem invisível

 Eu sou o homem invisível. Já nasci assim, não é super poder ou coisa do tipo, não é macumba, nem feitiçaria. Eu sou o rapaz que limpa as ruas, a velhinha que faz renda na esquina, o garoto que vende bala no sinal, eu até arrumo as salas da sua escola. Você não me conhece, eu sei... Não olharia pra mim nem se eu te pedisse esmola. Fui eu que construí seu prédio, lembra? Não, não lembra... Sabe por quê? Somos todos invisíveis a quem só olha para cima.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Plasticidade

 De papel não, meu caro. Papel é maleável e às vezes até dá para ver através. Acho que é plástico mesmo. Daquele bem duro, sem cor, opaco e vagabundo. E não são tão imóveis. São seres diabólicos, maquiavélicos, que confabulam pelas suas costas, mas na sua frente, aí sim, parecem porcelana. Porcelana da cara. Por um segundo, você até chega a pensar que encontrou algo valioso; mas no fim, é só plástico. "Que porra é essa?". Este é o futuro das relações, é última tecnologia - apesar de não ser inovação no mercado. Mas eles vêm com novidades... As novas versões são tão detalhadas, que até parecem superficiais: se você chegar bem perto, dá até para ouvir uma vozinha gravada no fundo, que fica a repetir:

- Meu amigo, meu amigo!