segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Biografia

  Ao final da vida de um babaca assumido, as pessoas que conviveram ao seu redor discutiam a provável causa de tamanha babaquice. 

 - Era a profissão - sugeriu um. 
  
  Fazia sentido. Afinal, seu cargo de chefia talvez necessitasse de uma postura árida e de algumas canalhices esporádicas. Mas logo alguém que o conhecia há mais tempo refutou a teoria.

 - Era nada. Ele era babaca muito antes desse emprego. Acho que vem de criança. Dizem que apanhava, que tinha problema em casa. Deve ser trauma.

  Agora, definitivamente, parecia desvendado o mistério. Sofrimento no início da vida, teve de endurecer. Justificável. 
  Nisso, veio caminhando um amigo de infância do falecido, que ouvia de longe a conversa. Com um sorriso no rosto, acabou com as especulações:

 - Trauma? Que trauma? Eu vivia na casa dele. Família tranquila, garoto bem criado, nunca faltou nada. Esse aí era babaca de babaca mesmo. - terminou sem mais explicações. 

  Os colegas se olharam calados. Nesse momento, as feições de todos estavam mais tranquilas. O que o conhecia há menos tempo pediu um brinde:

 - Em memória do grande babaca. 


 
  

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Realidade miojo

 São 3 minutos. Tá pronto. Põe no prato. Um garfo basta. Come rápido pra sair. Finge que matou a fome. Prato na pia. "É muito carboidrato? Tem gordura? E a proteína?". Não tem tempo pra isso. Se perguntarem, tava ótimo. Anda sorrindo. "Macarrão instantâneo não é tão ruim assim". Engole tudo com as frases, as ideias, as opiniões. Engole sapo, engole seco, engole o choro. Engole tudo, mas a fome volta. Agora falta pouco. Quase em casa. Chegou. Ducha rápida. Mais três minutos. Pronto. 


sábado, 9 de janeiro de 2016

Enciclopédico

 Guardou todos os nomes de filmes, mais 200 livros e 500 músicas. Aprendeu as frases de efeito, duas línguas e oito instrumentos. Passou anos vivendo só para impressioná-la. E mesmo assim, não bastou. 

 O que ela queria ainda não estava na Barsa. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Amnésico

 O velho triste observa do sofá, melancólico, seus retratos antigos na parede. A aparência alegre, com os belos dentes à mostra lhe provoca desconforto imenso. Não consegue parar de pensar o quão mais feliz era. 
 Decidido, então, se levanta e começa a retirar as fotos emolduradas uma a uma da parede e jogá-las num saco de lixo. Põe todos na lixeira e continua vivendo naturalmente.
 Agora, com a inexistência prévia do sorriso, é o mais feliz de que se lembra ser.