sábado, 26 de dezembro de 2015

Presente

Papai Noel ainda vem?
Mas é claro, meu menino!
Esse tal de bom velhinho
Não se esquece de ninguém 





segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Dose única

Gosto dos amores
Como gosto da poesia
Curta, breve e pontual
Que a euforia vem depressa
E chega logo no final 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Calma

  No alto do vale, há uma feiticeira com o segredo da imortalidade. Entre o misticismo e o realismo concreto, cria diálogos mágicos de séculos que parecem durar segundos. Brinca com os eventos em suas mãos, passeia pelo medievo, pela Bastilha e o moderno, sem se perder na malha fina dos anos. E, por fim, transforma o tempo num detalhe
  É que o encantamento vale mais que a pressa quando se tem a prerrogativa de viver para sempre.

sábado, 14 de novembro de 2015

Biográfico

  Toc-toc. Bati na porta antes de ouvir a pergunta destruidora: "Quem é?".
  Olhasse pelo olho mágico, arriscasse abrir a porta sem saber quem batia, perguntasse minha idade. Perguntar quem sou, isso já era demais.
  Rapidamente, peguei o celular e vasculhei as fotos das redes sociais, atrás de uma sugestão. Olhei a identidade, um cartão de visitas na carteira, mas não havia nem palpite. Fui embora por medo. Se eu não sabia quem era, que dirá o que haveria do outro lado da porta. E a pergunta continuou sem a resposta.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Da cartola

 Quando a primeira mágica surgiu, não foi pelo entretenimento, mas por necessidade. Primeiro, era só o mágico e o truque. As palavras mágicas e a plateia foram surgindo só depois, quando as manobras foram ficando mais elaboradas. É que a fé do artista já não era suficiente pro espetáculo acontecer. Então era hora de fazer mais gente acreditar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Recordista

Se vim, foi pra fazer
O que ninguém fez
Se fosse para repetir
Ia pra casa e dava a vez
Lá, ao menos a água é quente
E eu me escapo de vocês

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Imediato

"Mas pra quando você quer?". Olhou pro relógio e falou: " Pra agora", e o ponteiro andou. "Agora!". O ponteiro andou. Ele parou, pensou um pouco e cedeu: "Melhor que seja pra daqui a pouco...".
O ponteiro ainda andava, mas a cara de bobo refletida no vidro ficava mais apagada assim.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Desencontro

Mas ainda ficou
Alguma coisa
Na estante
Não duvide:
Voltarei quando
For interessante

Para os dois

domingo, 26 de julho de 2015

Hocus Pocus

  Ficou aguardando ansiosamente. Olhos vidrados, atento a cada movimento. Esperava não perder nem um segundo, ver de pertinho, mas nada aconteceu. 
  Para a mágica ocorrer, é preciso distração.

  Pisque mais.

domingo, 19 de julho de 2015

Début

Existe sempre um momento em que cada coisa revela a sua real finalidade. A sua essência. Por mais bem escondido que esteja, sempre há um descuido que compromete o disfarce e deixa aparecer o que se tem de mais primitivo. O desavisado chama este ponto de desfecho, sem perceber que é ali onde tudo realmente começa. Até então, era imaginação. E ela raramente basta.

Bem-vindo à realidade.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

segunda-feira, 13 de julho de 2015

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Inócuo

  Por um instante, lhe faltou o ar. As pernas enfraqueceram de repente, a visão se tornou turva, o coração perdeu o ritmo. Foi se distanciando daquele momento. Parecia que estava deixando o corpo. Até achou que fosse morrer por amor. Achou. Mas era só frescura mesmo.

Desamor não mata ninguém.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Saturada

Vivia feliz:
Por ser muito ocupada
Não lhe sobrava
Tempo livre pra nada

Nem para reclamar

terça-feira, 26 de maio de 2015

Guru

  O conselho entrou pela janela. Ainda que não tivesse o seu tom, tinha, definitivamente, a sua cara. De início, nem reparei. Divagava sobre os microproblemas cotidianos que parecem imensos à primeira vista. Enquanto isso, pouco a pouco, foi ganhando as feições a que há tanto me acostumei. Se aproximou sorrateiramente, de uma vez, e me trouxe a solução. Me sacudiu:

"Seja homem, já que sua mãe não foi."

terça-feira, 19 de maio de 2015

Sutil

Cuidado ao se oferecer:
Entre o solícito e o idiota
Há uma linha tênue
Tão tênue
Que ninguém vê

terça-feira, 12 de maio de 2015

Pechincha

Foi vendo o homem deitado
Junto ao carro, na esquina
Que entendi que a vida
Vale menos que a gasolina

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Mímico

  Tentou deixar a barba crescer e falar mais grosso, mas não adiantou. Tentou comprar um carro esporte, beber bebidas mais caras e se encher de mulheres. Não funcionou. Tentou comprar um terno, fazer cara de mau e não dar bom dia, mas não chegou nem perto. Ainda estava longe de ser igual ao pai. Faltava muito. Faltava ser homem.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Rasteiro

  Felipe já nasceu com medo de altura. Quando menor, fugia da roda gigante. Suas viagens eram só de trem e navio. Avião, nem pensar. Na adolescência, não passou de 1,60. Crescendo, se conservou pequeno. Não pela estatura. No trabalho, recusou dois cargos altos e sua relação era péssima: palavras de baixo calão e fobia da high society.
  Durante uma vida inteira, Felipe se manteve próximo ao chão. Se achando esperto, evitou todas as quedas que a vida poderia ter oferecido. Pobre rapaz: mal percebeu que nunca esteve por cima.

sábado, 25 de abril de 2015

sexta-feira, 20 de março de 2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

domingo, 8 de março de 2015

Tornado

  Ah, se você soubesse quanto tempo eu demoro reajeitando tudo, você não vinha pra bagunçar. Eu queria ver ter a empáfia de desfazer todo o meu trabalho, se soubesse o trabalho que dá! São horas realocando, rearranjando, recolocando cada coisa em seu devido lugar. Para, do nada, num momento rápido, você aparecer só para revirar. Mas eu ainda me vingo: quero ver você vir cheia de vontade pra me provocar e dar de cara com tudo jogado, sem ter ninguém pra arrumar. Vou assistir, da casa da frente, você aparecer dia após dia pra ver se voltei pra lá, com os olhos baixos e a esperança de poder ter de novo um lugar só pra desajeitar.

sábado, 7 de março de 2015

Testamento

  Sabia que o tempo era curto. Não daria para ir em casa despedir, fazer uma festa, reunir os amigos mais íntimos, nem a família. Apenas aceitou. Sorriu e acenou com a cabeça. Então se dividiu em mil pessoas. E viveu para sempre.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Primum

Eis aqui a regra básica
Já aviso de antemão:
Se fazer bem não é possível,
O mal não é nem opção

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Dividendo

  Escrever não dói, senhores. Pelo contrário: a escrita é o ópio necessário para os pensamentos. Pensar dói. Escrever, não. Com as palavras, torno pública a algia da verborragia, antes interna, que tanto me incomodava. E a dor compartilhada dói em mil peitos, mas dói bem menos no meu.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Imutável

Se eu escrevesse como Francisco
Não seria Chico
Seria João

Se eu cantasse como Tião
Não seria Tim
Seria João

Se eu pensasse como José
Não seria Zeca
Seria João

Mas se amasse como Antônio
Não seria Jobim
Muito menos João

Mudo a rima, o verso, o tom.
O amor, não.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Finito

  Tudo já nasce com o destino de acabar. É a sina da vida: irreversivelmente, tudo caminha em direção ao fim.
  O lado bom é que a lógica nos prepara para todos os finais, o lado ruim é que nem sempre sabemos quando eles vão chegar. Mas eles chegam, e não adianta ficar esperando, ou tentando mudar.
  Aí é que está o barato: enquanto você lia, tudo ficou mais próximo do final, inclusive o texto, que terminou e você nem viu.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Errosofia

  Sempre errado: um milhão de manias, centenas de tolices e mais alguns problemas variados. Já tentei me desfazer de todos, mas é sempre a mesma coisa: após alguns gritos, os pego à força e coloco pra fora de casa. A porta bate, eu me viro e vou fazer outra coisa, mas a janela sempre fica aberta. Em questão de minutos, estão todos de volta, tentando por a casa abaixo. Assim, o ciclo se repete indefinidamente.
  Pra você, pode parecer bem mais simples do que é: basta fechar tudo e esperar que eles vão embora. Aí é que está: eles nunca vão. E eu nunca fecho tudo. "Por que?". Não sei, meio difícil de dizer... Acho que me apeguei aos meus defeitos. São de estimação.